Bom, eu não tenho empregada.
Não cheguei a esse nível de organização doméstica-familiar, ainda.
Mas tenho um braço direito, a tia Rosa.
A tia Rosa é uma das minhas 4.597 tias. Meus avós (os 4) não tinham televisão, e tenho pelas minhas contas, 9 tiAs, somadas por parte de pai e de mãe. Sabe Deus e minhas avós qtos tiOs.
Bom, a tia Rosa é a tia que ficou pra titia. Não casou, não teve filhos e não tem uma profissão. Morou a vida inteira com os pais e sempre ajudou as irmãs com os sobrinhos. Lembro que eu adorava qdo ela vinha pra minha casa (ou casa da minha mãe, ainda é confuso isso na minha cabeça).
Depois da morte dos meus avós, de quem ela cuidou até o fim da vida, ela saiu da cidade dela e veio pra São Paulo, pra ficar mais próxima da família.
Em março do ano passado ela largou o emprego que conseguiu aqui em São Paulo graças a um AVC.
Eu estava grávida de 7 meses do Samuel e apesar dos protestos das pessoas mais próximas, fui visitá-la no hospital onde ficou internada.
A cena dela sentada na maca, toda assanhada, faminta, tentando com muita dificuldade colocar com o braço esquerdo (já que tinha perdido parte dos movimentos do lado direito), um pouco de comida na boca, não saiu da minha cabeça até hoje. Foi tão forte quanto ver a Malu num bercinho de UTI com os bracinhos e pezinhos todos cheios de furos e fios 6 horas depois de dar a luz.
De lá pra cá, ela tem se dedicado integralmente a sua recuperação e a ajudar a família, afinal com tantos sobrinhos (tenho primo saindo pelo ladrão), SEMPRE, tem alguma coisa pra fazer. E eu sozinha, com dois pequenos, do outro lado da cidade sou a mais necessitada de seus préstimos.
Lógico que o AVC deixou consequências. Os movimentos do lado direito foram quase totalmente recuperados. Mas do ponto de vista psicológico as conseqüências foram maiores. Pelas minhas contas, ela ficou com a idade mental de uma criança de 10 anos, é teimosa, inconseqüente e imatura. E principalmente precisa de cuidado e carinho, igualzinho a uma criança mesmo.
E isso traz a tona uma máxima que ouvi uma vez:
“Nós cuidamos dos jovens, pra eles cuidarem de nós quando estivermos velhos.”
Será que é isso mesmo? Do barro viemos, pro barro voltaremos?
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